| Livros, pudor e virgindade |
| Escrito por Lorenzo Ellera |
|
Eu estava cheio de dedos (com trocadilho) manuseando meu livro novo. A minha pacienciosa espera, de, aproximadamente, quatro semanas, foi recompensada. Aliás, esta tinha sido a minha primeira compra na Amazon. Ao abrir o pacote dos Correios fiquei MARAVILHADO: ele era lindão, capa dura e um belo layout de capa e miolo, como esperado, afinal, se tratava de uma publicação que conta a história do design gráfico contemporâneo.
Comecei a ler e folhear as páginas de um encorpado papel couche, e fui ficando cada vez mais entusiasmado com o texto e as ilustrações. Senti necessidade de fazer anotações e sinalizar partes relevantes, mas eu não tinha coragem de “interferir” naquela publicação, então passei a fazer as observações em um caderno. Os dias foram passando e meu deslumbre por aquele livro permanecia, eu tinha muito respeito e admiração por ele, folheava as páginas com todo o zelo, no entanto, a estratégia de fazer as anotações em um lugar separado era pouco “produtiva” e à medida que fui criando intimidade com este livro, fui cogitando a ideia de “rabiscar” diretamente nele. Depois de algumas semanas de “relacionamento” com o livro perdi o pudor e passei a fazer anotações e marcações diretamente nas suas magníficas páginas, enfim desvirginei a publicação.
Pode parecer bobagem, mas, para mim, foi um momento de reflexão e alegria. Calma... vou explicar. Entendi aquela situação como uma relação entre pessoas, que ao se conhecerem medem as palavras gestos e até... pensamentos!! Foi que senti em relação àquele livro no momento que me permiti rabiscá-lo. A partir daí eu já estava íntimo o bastante daquela gloriosa publicação para poder “modificá-la”. Este episódio me fez pensar além de uma situação pontual. Refleti que os adoradores de livros têm uma relação de “convivência” com as publicações, e quando se trata de um tomo especial esta intimidade não se dá de imediato. Temos que nos aproximar dele, criar um vínculo, para então perceber que ele está ali para ser marcado, sinalizado, enfim interagido sem nenhum pudor.
Para os amantes dos livros deixo aqui uma dica literária:
“Não contem com o fim dos livros” - Humberto Eco e Jean-Claud Carriere É um bate papo muito interessante, e de fácil leitura, onde os dois discorrem sobre a história dos livros e a indagação do momento: Os livros vão acabar? A resposta já esta no título, mas tem muito mais assunto ali dentro. Vale a pena.
Finalizando, penso que esta historinha que acabei de relatar demonstra, também, que Ipads e dispositivos eletrônicos não vão substituir a leitura convencional e a alegria que se sente a cada livro que se adquire (tocar, sentir, cheirar...), pois, no caso dos e-books esta só se dá uma vez: ao adquirir o aparelhinho, depois cada publicação é só mais um download, frio, inodoro e intangível. Comentários
Adicionar novo
Busca
|

